
Um tesouro! Escrita por Gerry Conway, ilustrada por José Luis García-López e cores de Joe Orlando, “Cinder e Ashe” é um tesouro de HQ!
Uma enredo de ação envolvente que narra a estória de Ashe, um veterano soldado mercenário, e Cinder, sua filha adotiva resgatada de Saigon nos meses finais da guerra do Vietnã. Juntos, a dupla toca uma agência de detetives ou, como dizem, uma agência de “resolução de problemas”. A incapacidade dos dois de escapar de seu passado de violência é o tema principal da estória.

Publicada nos Estados Unidos pela DC Comics em 1988, e no Brasil já no ano seguinte em duas caprichadas edições pela Editora Abril, Cinder & Ashe se passa em Nova Orleans e não é improvável que o escritor Conway tenha se inspirado no relativo sucesso do filme policial “Acerto de Contas” (The Big Easy) lançado apenas dois anos antes. Como no filme, a interessantíssima atmosfera cultural da Louisiana permeia a estória, com suas influências afro-americanas e francófonas, os cajun.

O roteiro de Gerry Conway é quase um filme à espera de diretor, mas o grande destaque é a arte do mestre José Luis García-López. Se não fosse um grande desenhista poderia ter sido um excelente ator.
Vejam a linguagem corporal dos personagens, os olhares. Notem as transformações nas posturas e expressões dos protagonistas antes e depois das violências vividas no Vietnã, a grande referência de suas vidas. Observem como o texto de Gerry Conway complementa perfeitamente os desenhos de García-López mostrando um quadro completo de cada personagem, nenhuma palavra a mais ou a menos. Percebam as minúcias no design dos personagens, o senso de moda de García-López ao vesti-los. Como Cinder usa roupas casuais que, de certa forma, remetem à sua época como ladra no Vietnã. Vejam como seus brincos, óculos, acessórios, mudam de acordo com a roupas que está usando que, por sua vez, variam de acordo com o contexto em que ela está. Elegante, ela tem um estilo para cada ocasião, ao contrário de Ashe! Percebam que não há nada que Ashe vista que não evoque alguma versão de um uniforme militar. Ashe é sempre um soldado e essa é sua tragédia.

Notem como o colorista Joe Orlano contrasta as cores do passado, uma paleta de verdes, vermelhos e laranjas mostrando um pesadelo de selva visceral e horror psicológico, com as cores do presente, azuis mais frios e opacos em quadros com menos cores como se a cor do mundo real tivesse sido eliminada pelos traumas da guerra. Observem que mesmo os extras ao fundo dos quadrinhos tem personalidade, interagindo entre si sem diálogo. Existe drama, estória acontecendo, sempre! Enfim, posso passar horas só apontando esses detalhes.

Texto, arte, cores, é tudo integrado a serviço da estória de maneira sutil e, por isso mesmo, magistral na sua comunicação!
Minha dica matadora? Procure “Cinder e Ashe” nos bons sebos do país, reserve a tarde de algum sábado e leia esse gibi legal ao som do ritmo zydeco, uma espécie de fusão entre o Rythim & Blues e a música “cajun” tradicional. E boa diversão!

