
Comecei a ler HQs da Marvel e DC no original em inglês quando tinha cerca de doze anos. Havia no centro de Brasília uma livraria chamada Sodiler que costumava vender quadrinhos americanos e minha mãe começou a me trazer alguns. Com o tempo, passei a ir por conta própria quando precisava retirar passes de ônibus e gastava parte da mesada por lá se algo me interessasse. Foi em uma dessas explorações que comprei “Super Boxers” unicamente pela belíssima capa estilo poster de cinema de Bill Sienkiewics.

“Super Boxers” fazia parte da recém lançada linha de graphic novels da Marvel que já havia originado várias estórias que hoje são clássicas — “Morte do Capitão Marvel”, “Dreadstar”, “X-Men: Deus Ama, o Homem Mata”, entre outras. Além de produzir estórias com os personagens da casa os criadores tinham liberdade para explorar projetos de autoria própria. É nesse contexto que surge “Super Boxers”, concepção do artista Ron Wilson com a ajuda de John Byrne no roteiro, Armando Gil na arte-final e uma constelação de diversos coloristas experientes da Marvel.

Ron Wilson foi um competente ilustrador de super-heróis na década de 1980, mais notadamente como desenhista do personagem Coisa nas revistas Marvel Two-In-One e The Thing, com belas páginas construídas seguindo o modelo Jack Kirby de mostrar cenas de ação. Considero que sua versão do Coisa talvez só fique atrás da do próprio Kirby e, talvez, a de John Byrne. Em “Super Boxers” Wilson cria um futuro próximo que estamos começando a experimentar, um mundo controlado por mega-corporações, onde tudo está ao alcance daqueles que seguem a linha das empresas enquanto uma classe marginalizada, excluída de todos os direitos e privilégios, se debate para sobreviver na sujeira do submundo. Envolvidas em perpétuas guerras de negócios, as corporações se utilizam de lutas de boxe superturbinadas como forma de resolução de grandes tacadas comerciais e aquisições hostis.

Para um quadrinho que, na superfície, pretende apenas mostrar boxeadores se digladiando usando luvas, botas e armaduras cibernéticas, “Super Boxers” se arrisca a sugerir algum comentário sócio-político nas entrelinhas. Há a velha luta de classes representada pelo embate entre Max, lutador humilde forjado nas ruas do submundo, em oposição a Roman, boxeador estrela das grandes corporações, ambos gladiadores em um jogo de poder em que são apenas peões. Há um alerta às formas artificiais de aperfeiçoamento humano e aos acenos da eugenia pois os lutadores corporativos são esculpidos geneticamente desde a concepção para serem os lutadores perfeitos, violentos e sem senso crítico. Há uma crítica sobre o total domínio do esporte pelo dinheiro e de, forma assustadoramente preditiva, o poder de sedução das apostas. Ora, toda a estória se baseia em uma imensa aposta, a posse de uma corporação empresarial sendo decidida com base no resultado de uma luta de arena! Por fim, há a misoginia ainda soberana neste futuro (presente?) distópico. Não por coincidência, nesta sociedade ainda profundamente patriarcal cabe a uma mulher, a CEO Marylin Hart, encarnar a subversão, revolução e esperança. Única mulher membro de conselhos corporativos formados inteiramente por homens, ela é a oponente a ser derrotada e, ainda que não explicitado pelo roteiro, ser mulher pode ser um dos motivos, ou o motivo, para que tentem derrubá-la.

A arte de Wilson mistura elementos futurísticos com uma estética dos anos 1930. Para meu gosto, as cenas de luta não chegam a ter o impacto do seu trabalho no Coisa. Ele mesmo um pugilista amador, Wilson parece tentar mostrar os combates de modo mais realista e cru mas, em alguns quadrinhos, o artista de “O Coisa” se revela e são nesses momentos que eu, como leitor, sinto mais a dor dos golpes. Trabalhando no mesmo imaginário dos filmes “Rocky, O Lutador” e “Rollerball, Os Gladiadores do Futuro”, mas sem repeti-los, o roteirista Byrne também parece arriscar técnicas fora de sua zona de conforto, optando por narrar a estória em terceira pessoa, às vezes falando diretamente com o leitor.

Mesmo moldada nos padrões de um filme de ação dos anos 80, ao final “Super Boxers” não foi tão bem sucedida quanto as demais graphic novels da Marvel e, hoje, é pouco lembrada. Ainda assim, em nosso presente de grandes empresas de tecnologia detendo poder político real sobre nossas vidas, sua fábula do herói da classe trabalhadora contra a opressão das corporações merece uma chance. Façam suas apostas!

