HQs QUE GOSTO: TEX #111 AO SUL DE NOGALES

Comecei a ler TEX aos nove anos de idade. Fui apresentado ao personagem pela minha prima Ivete que colecionava ZAGOR mas também tinha em casa dois TEX (TEX #24, “O Misterioso Mister P” e TEX #25, “A Lança Sagrada”). Não me interessei muito por ZAGOR mas devorei os dois TEX. Em uma época em que começava a me interessar por heróis da Marvel, TEX destoava com sua ausência de super-poderes e revistas em preto-e-branco, da grossura de um livro pequeno. Vencidos esses preconceitos, virei fã e li TEX religiosamente até meus dezesseis anos.

Logo nos primeiros meses de leitura percebi que Tex, o personagem, era detentor de uma violência acima da média da que encontrava em outros heróis. O personagem não hesita em obter informações e confissões por meios violentos. Entretanto, ao contrário de diversos anti-heróis de HQ que parecem extrair prazer da violência e a vem como um fim em si mesma, a violência em TEX nasce de um sentimento de revolta com as injustiças e da impotência do cidadão comum frente a elas. Ao se defrontar com um malfeitor, seja ele pistoleiro ou mandante, Tex em geral não se contém. Não é preciso nem ser atacado primeiro, basta se irritar ou se indignar para soltar os punhos em quem, a seu ver, merece uma coça. No contexto do universo em que habita, uma realidade em que sempre prevalece a vontade do mais forte, Tex se coloca como protetor de quem não pode reagir e se vê no direito de mandar as regras às favas. Para ele, essa é a única opção de justiça frente a leis que só favorecem os poderosos.

Parte de seu sucesso talvez se deva a isso mas também é inegável o carisma e simpatia do personagem e seus “pards”, o ranger Kit Carson, o navajo Jack Tigre e o filho Kit Willer. A qualidade das estórias, com tramas longas e bem arquitetadas desenhadas por ótimos artistas, completam o caldo que fez TEX cruzar as fronteiras da Itália e ser publicado mundo afora.

Escrita por G. L. Bonelli, co-criador de Tex, e desenhada pelo meu artista preferido de TEX, Giovanni Ticci, “Ao Sul de Nogales” condensa e representa o que há de melhor em TEX. Em uma mesma estória temos tiroteios, mexicanos, apaches, exército americano, sinais de fumaça, cenas no deserto, cenas no “saloon”, Tex e Carson se provocando mesmo em apuros, Jack Tigre e Kit Willer em ação, Tex socando o bandido porque sim. Está tudo lá em quase 100 páginas com todos os elementos característicos do gênero “western” primorosamente ilustrados. A trama? Tex e amigos vão ao encalço de contrabandistas de uísque e são atraídos para uma armadilha mortal. Simples e direto, mas executado com muita competência e fluidez. Curiosamente, a estória começou a ser produzida entre 1967 e 1971 e, por algum motivo, só foi terminada entre 1976 e 1977. De fato, é nítida a mudança no estilo de Ticci depois das primeiras 24 páginas.

Depois de “Ao Sul de Nogales” ainda li TEX por mais uns cinco anos. Com o tempo os enredos começaram a se repetir, o que é normal nesse tipo de publicação periódica, e parti para outras leituras. TEX seguiu sem mim, óbvio, outras crianças de nove anos foram apresentadas ao personagem e assim o sucesso vai se perpetuando. Não é surpresa, TEX é muito bem produzido, escrito e desenhado para agradar a todas as faixas etárias.

Quanto a minha coleção de TEX, doei parte para a Gibiteca Henfil, em São Paulo, e parte para o Espaço Cultural Renato Russo, em Brasília. Podem ir lá aproveitar. Toda a coleção foi conquistada pelo romanos? Não! Irredutíveis 27 exemplares, quase todos desenhados por Ticci, ainda resistem bem guardados em casa! “Ao Sul de Nogales” é um deles.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

*

*