• HQs QUE GOSTO: EL ETERNAUTA

      A Argentina sempre me fascinou. A literatura, o cinema, a música, o futebol! De uma forma curiosa me identificava com um lugar em que nunca havia estado e um povo que nunca havia conhecido. Em 2003 resolvi tirar isso a limpo e passar um mês mochilando em terras argentinas, ver de perto o que tanto me atraía, e o país não me decepcionou.

      Já nos primeiros dias vagando por Buenos Aires topei em uma banca de jornais com uma edição de “El Eternauta”, clássico da HQ argentina. Comprei por, acho, 18 pesos. A partir daí “El Eternauta” foi meu companheiro de viagem, toda noite sem falta lia um pouco nos albergues em que ficava. Lia avidamente. Não sabia de antemão absolutamente nada sobre a estória, o que foi
      uma grande vantagem. Cada página era uma revelação e me deixei levar sem resistência pela trama!

      Escrita por Héctor G. Oesterheld e desenhada por Solano López, “El Eternauta” inicia com quatro amigos jogando truco na casa de um deles quando começa a nevar. A partir daí, os personagens (e o leitor) vão descobrindo que há algo mais por trás de uma simples nevasca. É uma estória de ficção científica, sim, mas como toda boa FC ela diz muito sobre as questões e ansiedades do presente, no caso o presente de 1957. Que a estória e seus temas permaneçam atuais é sinal de que a humanidade talvez não tenha evoluído tanto assim desde então.

      Oesterheld recriaria a série com desenhos do grande Alberto Breccia e um enfoque maior na crítica social e política, versão que ainda não li. A ditadura militar instalada em 1976 cobraria seu preço da dupla criadora. Oesterheld e as quatro filhas foram “desaparecidos” devido à sua atuação política e nunca mais foram vistos. Solano Lopez emigrou para a Espanha, depois Brasil, retornando à Argentina em 1995 onde veio a falecer em 2011.

      Por todas suas qualidades “El Eternauta” se tornou um marco do quadrinho argentino e mundial, culminando em 2025 na série da Netflix estrelada por Ricardo Darín. A primeira temporada abrange cerca de quarenta por cento do total da estória e, assim como na HQ, creio que é melhor apreciada por quem desconhece completamente o enredo. Espero que tenha mais uma temporada para concluir a estória. A ver.

      Relendo-a agora novamente, identifico com mais clareza o que me faz retornar a “El Eternauta” de tempos em tempos. Não é apenas a arte em preto e branco, fabulosa, ou o roteiro, que se lê como se fosse literatura, ou sua mensagem de resistência coletiva a formas de opressão. São os olhos. Solano Lopez era um excelente desenhista mas a maneira como conta a estória através dos olhos dos personagens é, pra mim, única. Quando penso em “El Eternauta”, penso nos olhos de seus protagonistas, coadjuvantes, figurantes… os olhos… nossos olhos.